Carry trade: o que é e por que o iene sacudiu os mercados em 2024

Em 5 de agosto de 2024, a bolsa do Japão caiu cerca de 12% em um único dia, a maior queda desde 1987, e o susto se espalhou pelo mundo. O índice S&P 500, dos EUA, caiu 3% no mesmo dia. No centro da confusão estava uma das estratégias mais antigas do mercado de câmbio: o carry trade. Entender como ela funciona ajuda a entender por que as taxas de juros mexem tanto com as moedas.
A ideia em uma frase
Carry trade é pegar dinheiro emprestado numa moeda de juros baixos e aplicar numa moeda de juros altos, ganhando a diferença. Durante anos, o exemplo clássico foi o iene japonês: o Banco do Japão manteve os juros perto de zero, ou até negativos, enquanto os Estados Unidos chegaram a pagar mais de 5% ao ano. Quem tomava ienes emprestados e comprava dólares, títulos ou ações embolsava essa diferença.
O real brasileiro, aliás, costuma aparecer do outro lado dessa operação: com a taxa Selic entre as mais altas do mundo, o Brasil é um destino frequente do carry trade dos investidores estrangeiros.
Como isso aparece no Forex: o swap
Na sua plataforma, o carry trade se manifesta no swap (ou rollover): a taxa que a corretora paga ou cobra por manter uma posição aberta de um dia para o outro. Ela reflete a diferença de juros entre as duas moedas do par.
- Comprar a moeda de juros mais altos contra a de juros mais baixos, como comprar USD/JPY nos últimos anos, tende a gerar swap positivo: você recebe um pouco por dia.
- A posição contrária gera swap negativo: você paga todo dia.
- Atenção: as corretoras descontam uma margem, e às vezes o swap é negativo nos dois sentidos.
Onde mora o risco
O ganho com a diferença de juros é pequeno e constante. O risco é grande e aparece de uma vez: se a moeda de juros baixos se valorizar de repente, a perda no câmbio apaga meses de juros em poucos dias. Como o carry trade é feito com muita alavancagem, todo mundo tenta sair ao mesmo tempo, e a corrida para fechar posições acelera o movimento. É o que o mercado chama de "desmonte" do carry trade.
O que aconteceu em agosto de 2024
- 31 de julho: o Banco do Japão subiu os juros de cerca de 0,1% para 0,25% e sinalizou novas altas. No mesmo dia, o governo japonês confirmou que tinha intervindo no câmbio para defender o iene.
- 2 de agosto: um relatório de emprego fraco nos EUA aumentou a aposta de corte de juros pelo Fed, o banco central americano. A diferença de juros entre dólar e iene, a base de toda a operação, encolheu de uma vez.
- 5 de agosto: o iene disparou, quem estava alavancado precisou fechar posições às pressas vendendo ações e outros ativos, e a bolsa japonesa despencou cerca de 12%. A queda arrastou mercados no mundo todo.
- Dias seguintes: parte das perdas foi recuperada já em 6 de agosto, e em meados de setembro a bolsa japonesa estava de volta perto do nível anterior. Mas quem estava alavancado do lado errado não teve tempo de esperar.
Lições para o trader
- Juros movem moedas. Acompanhe as decisões dos bancos centrais (Fed, BCE, Banco do Japão, Banco da Inglaterra) no calendário econômico.
- Swap positivo não é renda garantida. Ele não compensa uma posição que anda contra você.
- Operação lotada é perigosa. Quando todo mundo está do mesmo lado, a saída é estreita.
- Use stop e tamanho de posição adequado, como explicado em Gestão de risco no Forex. Foi a alavancagem, e não a estratégia em si, que transformou agosto de 2024 em pânico.
Fontes: Banco do Japão, decisão de política monetária de 31 de julho de 2024; cobertura do mercado em 5 e 6 de agosto de 2024 (RBC Wealth Management, Christian Science Monitor, Envestnet). Conteúdo educativo, não é recomendação de investimento.


